sábado, 29 de março de 2014

A ditadura militar e minha vida - parte 2

A 'guerra de Xambioá' e o Secos & Molhados

A vida transcorria numa infância sem muitos medos, a não ser quando éramos obrigados a receber na escola a visita de militares que nos davam ordem unida e ensinavam a cantar o Hino Nacional. Eram vésperas de datas cívicas – Sete de Setembro, Quinze de Novembro e até dias de alguma Arma. No da Marinha era o melhor, por causa do hino, o mais bonito: “Qual cisne branco em noite de lua...”

O medo era porque, sempre na presença dos militares, os colegas gaiatos e mais velhos incutiam na cabeça da gente que teríamos que ir para a guerra.

O medo aumentou quando, já morando em Goiânia e com meus 13 anos, fiquei sabendo de uma tal “guerra em Xambioá”, então norte de Goiás. As Forças Armadas estavam lá lutando contra “terroristas da União Soviética” e a turma dos sacanas espalhavam que todo mundo, velhos, rapazes e meninos seriam convocados a servir para “combater os comunistas, pois eles comiam criancinhas”. Até os nossos pais ameaçavam alistar a gente para a guerra caso não fossemos obedientes.

A “guerra em Xambioá” era uma coisa real para mim e aos amigos do Jardim Novo Mundo, em Goiânia. É que o seu Mário, o sargento Mário Preto, da Polícia Militar de Goiás, era “delegado” em Xambioá e vivia de perto a tal guerra. Ele era separado da Zuleica, nossa vizinha e melhor amiga de minha mãe, mas estava sempre no Novo Mundo.
 
Seu Mário e o sargento Mário
Pai dos meus amigos Marinho, Marcinho e Marquinho e de suas irmãs Sueli, Sandra e a minha futura comadre Sônia, mãe do Rodrigo, meu afilhado que é médico aqui em Brasília, seu Mário tinha cara de mau. Andava sempre fardado, barba por fazer, a camisa de manga comprida mal dobrada no antebraço e com um tresoitão de cano longo pendurado no cinturão que pendia na diagonal da cintura esquerda até o meio da coxa direita, feito Trinity, nosso engraçado herói do velho oeste, que fazia muito sucesso na época na pele de Terence Hill. Mas a cara e o corpo do seu Mário era de Bud Spencer...

Então na Escola Municipal Bárbara Souza de Moraes, onde eu estudava, não se falava em outra coisa e a molecada até brincava de guerra de Xambioá na hora do recreio, de um lado os comunistas comedores de criancinhas e os soldados brasileiros. Só do Exército, porque ninguém queria ser polícia militar.


Eu e meu amigo Wilton, inexplicavelmente, não queríamos nem um e nem outro. Estávamos sempre na turma dos “terroristas da União Soviética”. Eu, o Wiltinho e seu irmão Chicão éramos considerados os rebeldes da turma e olhados com muita desconfiança pelos colegas e as meninas da escola. Tudo porque aceitamos representar o Secos & Molhados numa apresentação organizada pela professora Enilda Garcez Lima, que viria mais tarde protagonizar outro episódio marcante na minha vida.
Wiltinho, eu e o Chicão

Esta história de Secos & Molhados deu o que falar no Novo Mundo. Não era qualquer um que tinha coragem de pintar a cara, vestir aquelas roupas afeminadas, rebolar e cantar O Vira e Sangue Latino no pátio da escola. E eu, que era coroinha da igreja da Paróquia Divino Espírito Santo, fui até chamado pelo padre Josef para dar explicações. Afinal, ficava muito esquisito aquele menino de batina nas missas dominicais fazer papel de Ney Matogrosso nas festas escolares.

Mas nem o padre Josef me intimidou. Alemão e soldado na Segunda Guerra, o padre era um neurótico de guerra e andava com uma pistola Mauser na cintura até mesmo debaixo da batina quando celebrava as missas. Com frequência o padre Josef se irritava com a moçadinha que ia para a igreja só para ficar de fora da missa paquerando. Aquilo algumas vezes o deixava transtornado ao ponto de sacar da pistola e dar tiros para o alto em pleno altar.
Padre Josef

Continuamos com o cover mirim do Secos & Molhados e no álbum seguinte da banda lá estávamos nós cantando Flores Astrais, Tercer Mundo e Delírio até nas quermesses da Paróquia.

Bom, o padre não falou mais comigo e passou a amarrar o cordão da minha batina com tanta força que eu passava a missa inteira com vontade de mijar. Anos mais tarde o padre Josef foi mandado de volta para a Alemanha, já completamente alucinado, sem condições mais de ser padre.

Um comentário:

Antonio Peres disse...

Fantásticas memórias. Excelente texto. Quando sai o próximo capítulo?